Da Ilusão da Previsibilidade à Geração de Valor: A Métrica do Desfecho Clínico
Síntese Executiva
- A previsibilidade financeira baseada em pacotes cegos é uma fragilidade que oculta custos catastróficos de reinternação e complicações.
- O Valor em Saúde (VBHC) é a única métrica capaz de alinhar a sustentabilidade do P&L à recuperação real do paciente.
- A governança de elite deve transitar do monitoramento de custos transacionais para a gestão de ciclos completos de cuidado.
Sentar-se na cabeceira de um comitê financeiro na saúde suplementar exige gerir uma busca incessante por previsibilidade. Num setor onde a inflação médica (VCMH) sistematicamente supera os índices oficiais de inflação, a promessa de “pacotização” e preços fixos surge como um oásis de conforto fiduciário. Validamos a complexidade da cadeira que você ocupa: a pressão por margens trimestrais muitas vezes empurra o Board para soluções de curto prazo que parecem estancar a sangria. No entanto, a maturidade executiva exige que façamos uma pergunta incômoda: estamos gerindo a saúde ou apenas administrando a previsibilidade da nossa própria insolvência?
A chamada “falácia dos pacotes” é, em sua essência, uma transferência temporária de risco financeiro que ignora o fator determinante da perenidade corporativa: o desfecho clínico real. Ao focar apenas no custo da peça e não no resultado da máquina, o Board pode estar celebrando uma economia ilusória hoje, enquanto planta as sementes de uma crise atuarial para o próximo biênio. A verdadeira antifragilidade não reside na estática dos preços fixos, mas na dinâmica da geração de valor.
A Gênese do Modelo de Remuneração e a Armadilha do Preço Fixo
Para compreendermos o Salto Quântico necessário, devemos analisar como chegamos à cultura do pacote. O mercado brasileiro foi forjado no combate ao desperdício do modelo Fee-for-Service, onde o incentivo era o volume e a ineficiência era remunerada. A migração para modelos de remuneração prospectiva, como pacotes e o DRG (Diagnosis Related Groups), foi uma resposta necessária para conter a variabilidade descontrolada de custos.

Contudo, este desenvolvimento estagnou. Ao adotarmos modelos de pacotes sem a acoplagem de métricas rigorosas de qualidade, criamos um incentivo perverso onde a margem é extraída da redução da intensidade do cuidado, e não da eficiência clínica real. Historicamente, o setor trocou o risco do uso excessivo pelo risco da subassistência. O erro estrutural reside em acreditar que a previsibilidade do custo é sinônimo de controle do risco. Na verdade, pacotes cegos apenas empurram o risco clínico para debaixo do tapete atuarial, criando o que chamamos de fragilidade sistêmica.
Os Números da Insolvência: O Custo da Não-Qualidade
A urgência desta transição é sustentada por dados que revelam a miopia do modelo atual. A padronização da qualidade através de frameworks de adoção digital é o único caminho para maximizar o impacto da entrega de saúde. Quando olhamos para os dados duros, a realidade é fiduciariamente alarmante:
- Reinternações e Desperdício: Reinternações evitáveis em até 30 dias após procedimentos pacotizados consomem, em média, até 12% da receita operacional líquida das instituições que não monitoram desfechos reais.
- Variabilidade de Custo: Em procedimentos de alta complexidade, como ortopedia e cardiologia, a variabilidade clínica pode alterar o custo total da jornada em até 400%, mesmo quando o pacote hospitalar aparente é idêntico.
- Impacto do VBHC: Instituições que implementaram frameworks completos de Value-Based Healthcare reportam uma redução sustentável de 15% na sinistralidade estrutural em períodos de 24 meses.
O Custo Oculto da Eficiência Ilusória
É preciso abordar com compaixão estratégica o paradigma mental herdado que domina a maioria das diretorias financeiras. Existe um viés cognitivo perigoso que confunde “preço fixo” com “controle de risco”. O mercado chama isso de previsibilidade, mas sob a ótica da governança de riscos, trata-se de uma fragilidade latente. Ao fixar um preço sem auditar o desfecho, o Board incentiva, involuntariamente, o prestador a reduzir custos através de cortes lineares: menor tempo de reabilitação, materiais de menor durabilidade ou altas precoces.
Este viés ignora que o custo que não apareceu na conta hospitalar hoje retornará multiplicado na forma de complicações e judicialização futura. Chamar isto de economia é um equívoco de paradigma. O Lado B que o mercado ignora é que o preço fixo cego é o maior indutor de má-assistência disfarçada de eficiência financeira. A verdadeira eficiência só existe quando o custo é reduzido através da eliminação de complicações, e não através da supressão do cuidado necessário.
A Terceira Via: Antifragilidade e Valor Real
A solução para a crise de sustentabilidade não reside em escolher entre conter custos ou melhorar a saúde; é integrar os opostos através da Métrica do Desfecho. O nexialismo aplicado à gestão fiduciária propõe que o valor seja a âncora de toda a contratualização. Unimos Lucro + Propósito ao criar modelos onde o hospital que entrega o melhor desfecho — com menos complicações e melhor percepção do paciente — é o mais rentável.
Nesta terceira via, o pagamento pode ser prospectivo para dar previsibilidade ao caixa, mas os gatilhos de remuneração variável devem estar atrelados à performance clínica real. A adoção de métricas como PROMs (Patient-Reported Outcome Measures) permite que a voz do paciente valide a eficácia do tratamento. Se o paciente operado continua sem funcionalidade, o pacote foi um desperdício de 100%, independentemente do preço pago. A eficácia clínica é o único redutor real de custos a longo prazo.
O Papel do Board na Governança do Valor
A transição para o valor é uma mudança cultural profunda que exige o impulso da alta liderança. Cabe ao Conselho de Administração elevar o nível da discussão, exigindo que a gestão saia do monitoramento de custos transacionais e passe para a gestão de ciclos completos de cuidado. O Board deve atuar como o facilitador desta transformação através de:
- Comitês de Valor e Desfecho: Fóruns permanentes que analisem a sinistralidade sob a ótica da qualidade assistencial, identificando onde a “não-qualidade” está drenando o capital fiduciário.
- Políticas de Remuneração por Performance: Facilitar a migração de contratos para modelos de risco compartilhado onde o sucesso clínico é o gatilho da integralização financeira.
- Gestão de Riscos Atuariais Antifrágeis: Incorporar indicadores de desfecho real nos relatórios trimestrais de risco, garantindo que o Board tenha visibilidade sobre a saúde futura da carteira.
O Triunfo da Gestão por Resultados e o Legado Fiduciário
A transição da previsibilidade estéril para a realidade dinâmica do desfecho é, em última análise, o maior ato de coragem executiva de um Board. Ao abandonar a segurança ilusória de um pacote cego, você escolhe construir um legado de perenidade e orgulho organizacional.

O triunfo da sua liderança será medido pela capacidade de ter transformado um sistema fragmentado em uma organização virtuosa, onde cada centavo investido tem um retorno comprovado em saúde recuperada. No ápice da maestria corporativa, o sucesso financeiro deixa de ser um objetivo isolado e torna-se o subproduto natural da excelência clínica. Ao colocar a verdade do desfecho clínico no centro da estratégia, você não apenas protege o patrimônio da sua organização; você honra a vocação fundamental do setor.
Nota de Governança: O desfecho clínico não é um indicador técnico; é a prova fiduciária de que o seu modelo de negócio é sustentável no longo prazo. O Board que ignora o resultado real do paciente está planejando a sua própria obsolescência atuarial.
Referências Bibliográficas
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- ERNST & YOUNG (EY). True accountable care: Maximizing healthcare delivery impact, efficiently. Strategic Healthcare Report, 2025.
- TALEB, Nassim Nicholas. Antifragile: Things That Gain from Disorder. Random House, 2012.
- ICHOM. The Standard Sets for Outcomes Measurement in Healthcare. International Consortium for Health Outcomes Measurement, 2024.
- ISPOR. Value in Health: Strategic Framework for Value-Based Healthcare Implementation. 2025.
- HARVARD BUSINESS REVIEW. The Strategy That Will Fix Health Care. Porter & Lee, 2013.
- HUAWEI TECHNOLOGIES. Intelligent World 2030: The Future of Digital Health. 2024.
- THE LANCET. Healthcare Systems: Moving from Volume to Value-Based Care. 2023.
- SILVA, A. C. et al. Da Ilusão da Previsibilidade à Geração de Valor: Métricas de Desfecho na Saúde Suplementar. Estudo de Governança, 2025.